Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

África... Como uma Mulher... Misteriosa...

A primeira viagem que efectuei foi a Angola. Também foi a primeira vez que entrei num avião, uma das minhas paixões, andar de avião. Nesta viagem, contactei e conheci outros povos e outras culturas. Apesar de ser uma viagem de trabalho, foi enriquecedora a nível pessoal. Antes de viajar disseram-me:

- “Moisés, vais gostar, África apaixona, até o cheiro da terra é diferente e atrai”...
Senti isso! Uma realidade diferente. Ao chegar é um choque. O avião que me levou aterrou em Luanda às 7 horas da manhã. Ao sair do avião sente-se de imediato outra atmosfera… O cheiro de África, o ar mais pesado e quente. Ao sair do aeroporto encontra-se uma cidade que se adivinha ter sido bela e com futuro. Uma cidade que tinha sido moderna, actualmente, uma cidade parada no tempo. Saímos do caos da área de chegadas do aeroporto e vemos um cenário de filme em cena do terceiro mundo. As pessoas rodeiam-nos para ajudar a levar a bagagem na esperança de receber algum dinheiro, o caos do trânsito é impensável, o lixo acumula-se nas ruas onde os esgotos a céu aberto circulam. Espera-me o Rui, um funcionário da empresa solícito e prestável, habituado como está ao caos do trânsito depressa me leva para a aerogare dos voos internos. Aí entra-se numa realidade que só vemos em filme e que achamos que só em película existe. O caos da rua invadiu aquele espaço onde a segurança é uma coisa que só existe na indicação que aqueles homens ostentam no peito, pois quase se pode entrar e sair sem que nos perturbem, mas pouco podem fazer além de ali estar e tentar zelar o melhor que podem e sabem. O lixo das ruas parece que também quer ir viajar no voo interno e ali está presente!
Depois de pensar viajar de imediato, 5 horas de espera e lá consegui embarcar no pequeno avião rumo à cidade de Huambo, antiga Nova Lisboa.
O pequeno avião de hélices deslizou na pista e levantou voo com uma facilidade que eu não pensava. Ao meu lado, uma jovem mulher negra amamentava o filho e via-se o medo de voar estampado no rosto. Depois de 45 minutos de um voo com algumas oscilações, normais em território de África, devido às montanhas, aterramos na pista do aeroporto do Huambo no planalto central de Angola. Ali o ar é mais leve, mas aquela atmosfera de África está presente e invade-nos…
Acho que é aquele o momento, gostamos ou não de África. Assim como quando vemos uma mulher, fascina-nos ou não. E eu, gostei de África e daquele primeiro encontro. Aquele ar invadiu-me e fiquei preso.
A viagem entre o aeroporto e a cidade é de escassos minutos. Entrar naquela cidade de Huambo e penetrar por aquelas ruas o choque é brutal. A pobreza é de arrepiar e a destruição inimaginável. As ruas cheias de gente que circula de um lado para outro, lembra um formigueiro, onde as formigas andam sempre apressadas, outras ficam paradas sem nexo. Se fecharmos os olhos e imaginarmos que toda a gente desaparece como passe de mágica, vemos uma cidade fantasma tal é a destruição em alguns locais. Mas se, com olhos fechados, recuarmos no tempo, vemos uma cidade que devia ser um paraíso, um jardim.
A pobreza é quase palpável, paramos o carro para tomar um café e rodeiam-nos uma dezena de crianças esfarrapadas a pedir dinheiro para matar a fome, nas primeiras vezes ainda damos, mas, não podemos salvar o mundo ali, e, passados uns dias, tornamo-nos daquele mundo e um bocado “duros de coração”. Ali a realidade é infernal.
No trabalho que estava à minha espera nessa Terra, contactei com pessoas locais. Olham-nos com alguma desconfiança, talvez devido aos anos de colonização e devido à guerra civil que depois assolou aquele país. Não posso dizer que fui mal tratado, longe disso, até fui respeitado pelo trabalho que executei e forma como tentei tratar todos, respeitando também.
No café onde tomávamos o pequeno-almoço e no restaurante onde, por vezes, jantávamos a simpatia era constante. Mas cidades são cidades em qualquer parte do mundo, com melhores ou menores condições, são sempre cidades com o seu movimento.
E em África, o que mais me encantou foi de facto o que é terra Africana, o interior. Percorrer as estradas do interior, ver e sentir a savana, seja de noite seja de dia. De noite parar o carro na berma da estrada, sentimo-nos pequeninos, perdidos naquela imensidão saímos do carro e o silêncio da savana escuta-se num grito de alguma ave que voa lá ao longe. O céu nocturno cobre-nos como uma abobada azulada/escuro e ficamos fascinados com vontade de não sair dali. De dia olhar a imensidão da savana a perder de vista, percorrer centenas de quilómetros e nada mais ver além de savana, alguma floresta e nem vivalma à vista. Ali as distâncias são medidas às dezenas ou centenas de quilómetros e o tempo é medido aos dias ou semanas. Ali não há uma ou duas horas, há dias ou semanas. Não há, dois ou cinco quilómetros, há vinte, cem ou duzentos. É essa forma de marcar o tempo, essa imensidão a perder de vista, essa sensação de liberdade que cativa e atrai em África. Não será só isso, porque acho que em África há algum mistério que nos deixa presos. Dizem que a raça humana surgiu em África. Será isso? E sim, o cheiro da terra vermelha é diferente.
 
Esta viagem foi em Setembro de 2007. Depois voltei ao Huambo, agora já mais recontruido. Gostei de ver o jardim...      

 

 

  

 

Em Angola também conheci mais cidades. A cidade de Caála, a pequena Bailundo, Benguela, Wuaco Kungo, Sumbe, Gabela, Porto Ambuim. 

Falarei um pouco delas num próximo encontro.

Publicado por Palavras Soltas às 23:23
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