Sábado, 28 de Agosto de 2010

Uma Viagem de Huambo a Benguela

Hoje, Huambo… Manhã… 8 de Março 2010.

Mais uma viagem se avizinha, hoje teremos que descer do planalto de Angola para a cidade de Benguela.

Os trabalhos por esta vez terminaram aqui no Huambo e vamos seguir viagem.

Carro carregado e é hora de seguir pela estrada, não podemos perder tempo que a viagem é longa, sempre são algumas centenas de quilómetros de estrada que se estende por algumas das mais belas paisagens de Angola que eu vi.

Eu sento-me no lugar do pendura e o Luís vai ao volante da carrinha Mazda preta que nos leva pelas estradas desde Huambo até Benguela.

Huambo, planalto central de Angola cerca de 1800 metros de altitude…

http://pt.wikipedia.org/wiki/Planalto_Central_de_Angola

Por estradas que atravessam belas paisagens vamos até Benguela. Vendo as paisagens vamos atravessar muitas zonas de floresta e selva praticamente virgens, e outras zonas que, em outros tempos havia enormes fazendas. Actualmente votadas quase ao abandono e aos caprichos da Natureza que vai tomando conta dessas terras.

Assim vamos descendo até Benguela junto ao mar.

Subimos a ladeira da “Pedra da Cuca”, passamos junto desse marco com o símbolo de célebre cerveja de Angola e seguimos pela estrada que nos leva até Alto Hama…Aqui viramos à esquerda e a estrada apresenta-se com bom piso devido à recente reconstrução. A viatura rola a bom ritmo, o Luís é bom condutor e eu aproveito para fazer umas das coisas que mais gosto, tirar fotografias. Máquina a postos e lá vou eu disparando fotografias para mais tarde recordar… A paisagem passa e eu vou tentando captar em imagens todos os pormenores possíveis que vão ficando guardados na máquina fotográfica. 1, 2, 3, 4, 5……………….2498, 2499, 2500… sim nessa viagem captei mais de 2500 fotografias, sim, eu sei que talvez 90% dessas fotografias não são grande coisa, mas são uma recordação que tenho. Eu, passei por ali…

Os quilómetros passam, o cansaço dos dias de trabalho anteriores vão tomando conta do condutor e ali à frente o Luís pára o carro e pede-me para eu conduzir que o sono já lhe aperta e não é seguro conduzir assim.

Sento-me ao volante e arranco enquanto o meu Companheiro tenta descansar um pouco. O transito é pouco, a estrada com piso bom, a música que seleccionamos para a viagem é agradável e enquanto conduzo vou observando a paisagem e pensando com os meus botões que esta Terra merece ter sorte…

A estrada agora desenha-se numa zona montanhosa e vai acompanhando os declives, ondulações e contornos das montanhas…

Passo uma curva da estrada e surge num declive, do alto vê-se a paisagem até perder de vista, os contornos das montanhas desenham-se ondulantes. Por ali a paisagem é mais agreste com pouca vegetação, o sol queima lá fora e o calor é abrasador.

Enquanto conduzo olho a paisagem em volta e lá ao fundo do lado direito uma aldeia espalha-se pela encosta da montanha que é fustigada pelo sol. Pela encosta, tal como um carreiro de formigas vejo as pessoas que vão descendo em fila indiana. A fila de pessoas prolonga-se em grande extensão pelos contornos da encosta queimada pelo sol implacável, que parece uma enorme serpente que vai descendo lentamente. Acho curioso aquele caminhar de tantas pessoas pela encosta que, abrando o andamento da viatura e observando que aquelas pessoas em fila indiana se dirigem para a estrada onde sigo. Ao chegar perto reparo que aos ombros de dois rapazes semi-nus vai uma pequena urna pintada de branco. Adivinho que todo aquele ritual se trata de um funeral. Mas um funeral que deve ser de uma criança pelo tamanho da pequena urna.

Paro a carro e deixo passar aquele cortejo fúnebre. 

As pessoas passam e atravessam a estrada com semblante carregado de tristeza e no seu olhar parece que agradecem o meu respeito pelo funeral.

Fico a pensar que em qualquer parte do mundo o respeito e saudade por um ente querido ter partido a viagem sem regresso é igual. A morte envolve as pessoas de tristeza em seja em que lugar for. Ali tratava-se de uma criança. E ali numa terra perdida nas profundezas de Angola, como em todo o lado lamentava-se a perda de uma criança.

O cortejo fúnebre atravessa para o outro lado da estrada e vejo que ali nesse terreno era o cemitério. A urna que de branco já tinha pouco, percebia-se que já tinha sido usada demasiadas vezes e penso que essa urna devia ser utilizada no cortejo, depois o corpo morto seria enterrado e a urna voltaria para esperar por outro corpo. A miséria e a pobreza dessa gente só permitia que existisse uma urna para todos os falecidos. Olho à volta e percebo parte dessa miséria, ali o solo parece estéril quase deserto e em dezenas de quilómetros em redor as terras não devem ser produtivas. Acho que daí advêm a miséria dessa gente daquelas paragens nessa parte de Angola, tão diferente de outros sítios em que a vegetação é luxuriante.

Na pausa que fizemos no caminho, os pensamentos voaram, mas era preciso continuar a viagem que ainda tínhamos muitos quilómetros pela frente.

O carro arrancou, as rodas rolaram e seguimos viagem.

Ali à frente chegamos a uma povoação, não me perguntem o nome porque já não lembro, cruzamos essa povoação e à saída a estrada era em terra, uma picada como se diz por estes sítios, buracos e mais buracos mas havia que seguir em frente, tínhamos pela frente mais de vinte quilómetros dessa estrada.

Como a velocidade era lenta dava para ir observando melhor o que nos rodeava. Por ali devia ter sido em tempos uma fazenda próspera, notava-se pelo que ainda existia, por ali a vegetação é densa, um enorme contraste com o que tinha visto nas terras onde presenciei o funeral. Mas por ali a pobreza também era demasiada. Aquelas paragens eram muito distantes dos centros urbanos e talvez devido a isso, essas pessoas estivessem votadas ao seu destino e sorte. Aqui e ali apareciam algumas pessoas a vender os produtos que a terra oferecia, frutos e um ou outro artesanato. Tentavam sobreviver e angariar algum dinheiro para as necessidades. As crianças ao ver o carro aproximar-se corriam a acompanhar na leve esperança que comprássemos alguma coisa.

Pois um carro a passar representa gente com dinheiro e havia que fazer todos os esforços para ganhar algum.

Mais à frente surge um terreno mais plano e um rio atravessa, a estrada vai passar sobre uma ponte, à distância parece que o estado é muito precário em termos de segurança. Aproximamo-nos e percebo que aquela ponte havia sido construída em tempos pelos Portugueses. Reparo e confirmo que sim ao ver ainda marcas portuguesas na construção, atravesso sem medo, pois essa ponte tinha sido construída por Portugueses. Atravessamos e o terreno apresenta-se plano, um pantanal que circunda uma fazenda que em outros tempos devia ter sido muito produtiva pelas infra-estruturas que ainda se conseguem manter em pé.

Penso; por aqui andou um povo que produzia, que fazia desta Terra uma terra com futuro, uma terra com riqueza, que aproveitava o que esta terra sabe dar de melhor.

E esse Povo era português.

Até a estrada por onde circulávamos agora em terra e cheia de buracos, foi em tempos estrada alcatroada, uma via de acesso entre Huambo e Benguela para que todos os produtos da terra pudessem chegar a todos os cantos do mundo através do porto de mar do Lobito e quem construiu essa estrada em tempos, foram os portugueses. Em todos os cantos de Angola por onde andei sente-se a presença dos portugueses, até os marcos na estrada são iguais aos que cá existiam… Ouvi algumas pessoas Angolana dizer que o maior erro de Angola foi expulsar e deixar os portugueses saírem.

Dizia-me um senhor angolano: - Tudo o que os portugueses cá fizeram foi bem feito e ainda hoje se mantém em pé.

Durante essa viagem senti orgulho em ser português! Até porque, o que os portugueses actualmente constroem em Angola continua a ser bem feito! 

A ‘picada’ acabou e novamente estrada alcatroada. Acelero o motor e a Mazda preta ganha velocidade, a paisagem passa mais rápido e o Luís que entretanto já tinha desperto vai tirando fotografias. A velocidade aumenta mais um pouco porque queremos chegar a Benguela ainda com sol e reparo que o velocímetro marca 150km hora, abrando um pouco, pois recordo que a velocidade é inimiga da segurança, ainda tenho presente um acidente que tive e só não morri por sorte, mas uma viatura idêntica a esta foi para a sucata.

- Moisés, deixa-me conduzir a mim agora, tira tu as fotografias, pois tu ajeitas-te melhor com a máquina.

Concordei com Luís. Parei o carro e trocamos de lugar.

Novamente a estrada alcatroada vai sendo calcorreada pelos pneus das rodas e a velocidade é razoável, o sol da tarde em contraste e contra luz desenha belas imagens nas nuvens e nas árvores da planície… Vou tirando fotografias a todos estes motivos e paisagens…

Mais uns quilómetros e chegamos à zona onde o ananás é cultivado e nasce livre na terra. Ao longe já se avistam as pessoas que na berma da estrada vendem estes frutos, são às dezenas as pessoas que querem vender.

- Paramos para comprar ananases? Perguntou o Luís.

- Sim, claro que paramos, vamos comprar alguns.

Mal o carro parou somos assaltados por uma multidão que nos rodeia na ânsia que compremos. Eu comprei um “lote” o Luís comprou outro, duzentos kuanzas cada um, equivalente a dois euros, enchemos o carro com uns vinte frutos desses… Pagamos mais uns kuanzas por dois sacos plásticos e lá seguimos sem conseguir satisfazer o desejo de toda aquela gente que era conseguir vender tudo. Não compramos mais, não tanto pelo dinheiro, mas porque talvez precisássemos de um camião para levar todos os ananases.

Depois de termos concluído este negócio da fruta voltamos à estrada e seguimos viagem…

Em frente surgiu uma paisagem fantástica, em contra luz do sol duas montanhas ao fundo pareciam dois seios de mulher.

Imagem bela. Não fossem os seios de mulher, uma das mais belas imagens que podem ser vistas. Acho que a mulher é das mais belas obras do Criador. E toda a mulher tem sempre algo de belo.

Várias fotografias foram captadas pela minha máquina desta bela paisagem.

Mais uns quilómetros e apareceu o Lobito. Cidade portuária, que penso, cresceu à volta do porto de mar. Do alto da colina vê-se o Lobito e apesar de toda a anarquia que o envolve é uma magnífica imagem de ser ver. Do outro lado estende-se a língua de terra que é conhecida pela Ponta da Restinga, onde a praia é excelente e as moradias são de luxo. Bem, actualmente estão um tanto degradadas, mas vê-se que em outras eras eram de luxo. Percebe-se que aquele cantinho do Lobito era frequentado pela alta sociedade de Benguela e Lobito, até pelo hotel que ainda hoje funciona e é referência. O hotel Terminus. Era ali que terminava a linha de comboio entre Benguela e Lobito e onde as famílias abastadas chegavam para talvez passar o fim-de-semana na praia da Restinga.

Descemos a colina que antecede a entrada no Lobito, atravessamos a cidade e seguimos para Benguela. Mais 30 quilómetros e Benguela é já ali.

Chegamos ao nosso destino. O estaleiro da Empresa onde precisávamos descarregar a carga e acabamos por distribuir os ananases pelos colegas, porque vai calor e esta fruta sabe sempre bem.

Assim terminou sem percalços mais esta aventura, pois cada viagem por terras de Angola é sempre uma aventura, pois nunca sabemos o que nos espera do outro lado de cada curva da estrada.

Quando entramos definitivamente em Benguela cidade já era noite, as ruas iluminadas e seguimos para a residencial que no acolheu nesses dias de trabalho em Benguela.

Tomamos um banho retemperador e depois fomos jantar ao Tudo na Brasa, restaurante de portugueses onde até encontramos um delicioso leitão…

Depois do jantar um cafezinho… Ir dormir, que no dia seguinte era preciso continuar o trabalho.

 

(Voltarei para deixar algumas fotografias desta viagem...)

Publicado por Palavras Soltas às 00:40
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
|

~Mais sobre mim

~Pesquisar neste blog

 

~Novembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

~Posts recentes

~ Viagem Luanda Huambo…(fic...

~ Do Huambo a Benguela _ 30...

~ A Capulana...(continuação...

~ A Capulana

~ VIAGEM DE LUANDA AO HUAMB...

~ 23:30 horas do dia 25 De ...

~ Uma opinião sobre aquela ...

~ O dia seguinte: (depois d...

~ Pensamentos Profundos est...

~ VANTAGEM DE NAMORAR UM BA...

~ Será que mereço o 12º ano...

~ É Bom Sentir...

~ A quinta do Homem...

~ COMO CHAMAR A POLÍCIA EM ...

~ Uma Viagem de Huambo a Be...

~ Um pensamento sobre Ilha ...

~ Dá para meditar um pouco.

~ “Fim-de-semana alucinante...

~ Cabo Verde

~ África... Como uma Mulher...

~Arquivos

~ Novembro 2015

~ Fevereiro 2013

~ Outubro 2012

~ Agosto 2012

~ Junho 2012

~ Junho 2011

~ Março 2011

~ Janeiro 2011

~ Dezembro 2010

~ Novembro 2010

~ Outubro 2010

~ Setembro 2010

~ Agosto 2010

~ Julho 2010

~ Junho 2010

~ Dezembro 2009

~ Junho 2009

~ Março 2009

~ Fevereiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Outubro 2008

~ Setembro 2008

~ Maio 2008

~ Março 2008

~ Dezembro 2007

~ Novembro 2007

~ Agosto 2007

~ Fevereiro 2007

~ Dezembro 2006

~ Novembro 2006

~ Outubro 2006

~Links

~6

6

~5

5

~4

4

~3

3

~2

2

~Outras coisas

1
blogs SAPO

~MEAT LOAF

~O Sapito

~Marc Anthony y La India

~subscrever feeds