Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Do Huambo a Benguela _ 30-02-2012


O dia até corria sossegado. O trabalho estava concluído, embora houvesse sempre algo mais a fazer, mas aquela etapa estava terminada. E nesse dia mais calmo, de manhã, permitiu-se ir até ao Huambo tomar um café no Império. Terminava o café e o telefone tocou. Olhou… Humm.. – Deve ser algo que não está bem lá por Benguela, pensou. Atendeu. – Bom dia Amigo, como estás? Do outro lado da ligação o seu colega de trabalho falou. – Bom dia venerável Amigo.. (sempre a saudação desse colega…) Olha, tens que vir a Benguela porque eu não consigo resolver o problema desta máquina. O dia que estava calmo ficou mais agitado. Preparou-se, comunicou a quem de direito e meteu-se à estrada. Até lhe ia saber bem essa viagem até Benguela. São algumas horas, mas já estava habituado a viajar sozinho e isso dava-lhe imenso goso. Viajar sozinho por aquelas terras. O dia estava bom. Sol e calor. E aquela reta até à Chipipa era uma das mais difíceis de passar, pois, depois de passar aquela reta, o Huambo ficava para trás e só o destino importava agora. E durante a viagem ir-se deliciando com as paisagens e motivos de interesse que via pelo caminho. E quase todos os motivos eram bons, para ver admirar. Desde o capim e vegetação rasteira, até aos mais frondosos imbondeiros. Tudo lhe despertava a atenção e fascínio. As pessoas que passavam, ou estavam na berma da estrada a vender os seus produtos da terra, Ou caminhavam para os seus afazeres. Os bosques e planícies. Tudo o encantava. Ali junto da berma uma moita de capim chamou-lhe a atenção e pensou em como aquela natureza lhe dava uma certa paz. Aquela moita de capim era capaz de ser um bom mote para um poeta… Pensou. Ligou o seu pequeno aparelho de musica ao som do carro e deixou a musica embala-lo… Adorava ouvir música nas viagens. Ali à frente já perto de Alto Hama, em Tchitatamela, uma brigada de controlo de trânsito fez-lhe alto e ele teve que parar. – Sr. Condutor, por favor mostre-me os seus documentos e os da viatura também. Mostrou os documentos… - Está tudo em ordem. Pode seguir viagem. – Obrigado Sr. Agente. Atrasou-se um pouco na viagem, mas até agradeceu aos Agentes da Autoridade terem-no mandado parar, é que o sono estava a “pegar” com ele e assim ficou mais alerta e a viagem decorreu tranquila. Alto Hama… Virou à esquerda e acelerou mais a viatura, pois os quilómetros ainda eram bastantes. O sol da tarde feria-lhe os olhos e então decidiu que devia colocar os óculos de sol, já tão velhinhos, devem ter uns 25 anos, mas que ainda cumprem a função para que foram feitos, acessório que quase nem usa, somente em viagem quando a conduzir e está sol. Alto Hama ficou para trás. No final daquela reta a descer, uma curva e sobe novamente, ali ao lado no meio de algumas árvores está, o que ele pensa ser um cemitério, ou onde caiu algum avião, pois tem umas esculturas em forma de avião. Ele fica a pensar o que ali teria acontecido. A viatura Toyota seguia veloz, não muito veloz, mas o suficiente para a viagem ser o mais rápido possível e em segurança. A paisagem ia-se abrindo ao longe em contornos ondulantes e suaves. Mais uns quilómetros e aparece Monte Belo. Ao chegar a Monte Belo vê uma rapariga caminhar na berma da estrada, às costas leva uma criança, também ela uma criança e já com um filho nos braços, ou melhor, às costas como quase todas as mulheres africanas. Pensa, como é que aquela jovem mãe irá dar sustento ao seu filho. Mas ali, naquela Terra, tudo é possível. As crianças crescem livres da modernidade e são felizes com tão pouco. Vai seguindo o seu caminho ao volante e ouvindo a música que ecoa no habitáculo do carro. Julio Iglésias canta “Las Cosas Que Tiene la Vida” e depois “Quijote” e a viatura deslizava pela estrada quente… E pensou que por vezes se sentia um ‘Quijote’… Ali ao lado um estaleiro de obras sem atividade mas ainda se encontra lá uma máquina como as suas, aquela máquina estava sem atividade fazia tempo, pois percebeu pela envolvência. Devia ter trabalhado para a reconstrução da estrada em que agora circulava, essa máquina pertencia a uma empresa brasileira. Teve que travar quase a fundo, pois um porco apressado, atravessou a estrada no seu caminho de procurar comida no campo do outro lado da estrada. Sorriu ao ver o animal nem se preocupou com o trânsito. Na berma estavam pessoas que vendiam carvão que elas próprias faziam para vender a quem passava, para ganhar algum dinheiro. Ele próprio já tinha comprado algumas vezes sacos de carvão pra fazer uns grelhados. Uma mulher envolta numa capulana caminhava pela berma da estrada com um molho de lenha à cabeça, levava esse bocado escasso de lenha para fazer o fogo com que devia cozinhar a comida para alimentar a família. Aquele local por onde circulava era muito pobre, quase de miséria, uma parte profunda de Angola, mas com belas paisagens. Paisagens, essas, que dão simplicidade e beleza a essa Terra. Essa riqueza que ninguém pode roubar. É esse o mistério de Angola que muito o fascina e cativa. Todos esses motivos que apaixonam… Mas que não se deixam domar… É Angola… África… Olha o horizonte e o sol começa a descer e define melhor os contornos das montanhas. Começa a ser a melhor hora de fotografar paisagens, mas nesse momento acha que aquelas imagens só devem ficar guardadas na mente e então a máquina fotográfica fica quietinha e vai observando tudo à passagem. Passa agora pelo sítio onde se cultivam os ananases… Bons… Saborosos… As pessoas juntam-se na berma para vender esse fruto que ele adora, acenam e chamam. Decide então parar para comprar alguns ananases e por duzentos Kuanzas compra uns dez. Arranca outra vez e vai ouvindo agora a música dos Sta. Maria. A Música que ouve agora é ‘Falésia do Amor’… Bem ritmada que ajuda no ritmo do andamento da viatura e depois “Happy Maravilha”… Duas músicas que gosta de ouvir… Embalado na música e um pouco distraído, trava para reduzir o andamento. Pois apareceu Bocoio e ao passar nas povoações e cidades reduz ao mínimo a velocidade para evitar ter algum contratempo. Pessoas caminham pelos passeios e olham o carro que passa tendo ao volante, um branco. Quem vende olha na esperança que ele pare e compre, quem vai para longe na esperança que dê boleia e uma rapariga ou outra na esperança que esse branco olhe para ela. Uma patrulha da Polícia atenta olha a condução, ele cumprimenta com um aceno de mão e recebe também o cumprimento e segue em direcção ao Lobito. São ainda mais de 100km… Pessoas regressam do trabalho do campo trazendo as enxadas ao ombro, armas da labuta da terra, para dessa terra tirarem o parco sustento. Olha e não muito longe da estrada vê os casebres onde devem ser os lares dessa gente que vive numa das Terras mais ricas de África. Agora a estrada tornou-se mais sinuosa como convém a quem conduz, pois uma estrada sem curvas é mais monótona e convida ao relaxamento, o que é perigoso na condução. E estrada que se prese tem que ter curvas e contra-curvas… Ele acha que uma estrada assim é mais feminina… Pensa e sorri para si… Até viu uma vez escrito na traseira de um camião a seguinte frase… “Mulheres e estradas sem curvas só dão sono”… Concordou com essa frase… Passa as montanhas que tinha avistado uma hora atrás e o sol poente quase o cega porque está baixo sobre o mar do Lobito. A estrada desce sinuosamente entre montanhas, Ele retira os óculos de sol pois quer sentir aquele sol assim… Passa a mudança de 5ª para 4ª e a rotação do motor aumenta para manter a mesma velocidade da viatura, porque, mais rotação do motor melhor se controla a viatura, ele assim aprendeu quando condutor militar e quando a sua vida também foi conduzir viaturas pesadas de carga… Por ali o "Demis Roussos canta “Happy to Be on an Island in the Sun” e depois ‘Lost in Love’ até acha uma música ideal para descer essa montanha. A Toyota desce a montanha pela estrada sinuosa como uma serpente até à planície em baixo e então a velocidade aumenta outra vez até uns 140km… Por ali se veem alguns imbondeiros frondosos… E sente África no corpo… Num espaço livre de árvores, está uma casa, alguns camiões parados, deve ser o equivalente ao que no seu país se chamam áreas de serviço. Segue e ali à frente está o cruzamento… À esquerda a estrada vai para o Lobito e Benguela, à direita segue até Luanda. Reduz a velocidade pois as autoridades de controlo de trânsito estão sempre ali, mas passa sem que o mandem parar e inicia a reta de 15km em direção ao Lobito. Ao passar olha para a direita com vontade de seguir por ali até Luanda. Pois Luanda, quer dizer aeroporto, avião. Avião que o levaria à sua terra e sente saudades da família, pois já hà alguns meses que está longe. O coração fica apertado… Mas o trabalho sobrepõe-se e segue pela reta de 15km. Acelera o motor do carro para tentar chegar ao Lobito a tempo de ver o pôr-do-sol. Mas ainda são mais de vinte quilómetros e vai ser difícil chegar a tempo. Entra na parte alta do Lobito. Contorna a rotunda, ali naquele sítio há sempre mercado onde se vende de tudo, esses mercados tão característicos da Angola de agora. Segue entre o trânsito confuso e uma menina pede-lhe boleia, mas não pára, porque não é conveniente dar boleias. Desce a colina e avista dali o mar do Lobito, vê o porto de mar e a Ponta da Restinga. Chegou tarde pois o sol já se tinha deitado pra lá do mar. Ficou com pena porque o pôr-do-sol visto dali é um espetáculo lindo. Segue por entre as pessoas que estão no mercado que ali em baixo também se faz todos os dias da vida daquelas pessoas. Os imensos táxis característicos de Angola, viaturas de 15 lugares e que na maior parte das vezes levam mais de 20 passageiros. Segue com cuidado entre os táxis afoitos para conseguir mais um passageiro e assim chega à via principal que o levará até Benguela. Via já reconstruida com traçado de separador central. Lobito está a tornar-se uma cidade moderna. Ali à frente está a Catumbela, ali passa já com os faróis da Toyota acesos, atravessa a nova ponte e olha para a ponte velhinha que agora descansa quase sem trânsito a circular sobre ela. Segue rumo a Benguela na via com traçado que se pode dizer de auto-estrada. É noite e ao longe vê as luzes que iluminam o novo estádio de Benguela. É ali que tem que virar à esquerda para o seu destino. O estaleiro da empresa onde está o dormitório e a máquina com a “doença” que o fez deslocar-se ali. Depois dessas horas a conduzir sem parar, estaciona no parque. O seu colega e amigo recebe-o com satisfação por ele ter chegado para resolver a avaria da máquina. A Rosário está a li e sorri-lhe. A pequena mulher Benguelense que está na empresa há alguns anos e que cuida dos alojamentos e da lavagem da roupa dos funcionários. - Boa tarde Rosário. E cumprimentam-se com um beijo no rosto. - Demoraste a vir cá… - Estava no Huambo, Rosário. - Tens que vir cá mais vezes. O teu quarto está preparado. - Obrigado Rosário. Vou arrumar a mala e tomar um banho, pois estou cansado. - Sim… E a Rosário sorriu-lhe mais uma vez. Ele foi para o contentor que servia de quarto, mas que estava bem preparado pelo seu colega responsável do estaleiro e viu que a Rosário tinha deixado o quartinho impecavelmente preparado. Qual quarto de hotel. Um aroma agradável a limpo, a cama impecavelmente feita e sobre a cama, uma toalha de banho. Sempre a eficácia da Rosário. Mulher pequenina mas incansável. Depois de tomar um banho, foi jantar com o seu amigo. Conversaram sobre o trabalho e o problema da máquina. Problema que ele já adivinhava o que seria. Deitou-se e descansou de mais essa viagem pela terra que ele sempre achava misteriosa… Cativante… Bela… Apaixonante… Indomável… Aquela terra que, mesmo que passasse nessas estradas centos de vezes, era como uma nova e diferente aventura… O dia seguinte chegou e a avaria reparou…em meia hora… Era sábado… Resolveu ficar para o domingo para ir até à praia da Restinga… Assim fez…

Esteve umas horas na praia da Restinga e ao voltar pegou num bocadinho de areia e levou consigo…Coisa que muitas vezes faz…

Levar consigo um bocadinho de cada lugar.

Publicado por Palavras Soltas às 11:17
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