Domingo, 24 de Outubro de 2010

A quinta do Homem...

 

 

A Quinta do Homem

Havia um Homem que tinha uma quinta…

 

 

Queria que essa quinta produzisse mas sabia que sozinho não conseguia.

Então contratou trabalhadores para a sua quinta. Distribuiu tarefas aos vários trabalhadores. A uns mandou tratar dos campos, a outros mandou fazer levadas de águas para regar os campos, a outros tratar dos caminhos para poderem circular melhor para fazer os trabalhos e a outros mandou arar a terra e fazer as sementeiras. Para supervisionar tudo isto contratou um capataz para orientar os trabalhos e pedia a esse capataz as responsabilidades de todos os trabalhos executados e o capataz dava-lhe todas a informações de como os trabalhos corriam e quais as necessidades que a quinta exigia.

A quinta produzia, o Homem pagava os salários aos trabalhadores, quando podia fazia uma visita pelos campos e conversava com o trabalhadores para saber quais as necessidades que tinham e se andavam satisfeitos. Constatava que apesar do trabalho duro de tratar dos campos, lavrar as terras, fazer sementeiras, as colheitas e guardar os cereais, os trabalhadores andavam satisfeitos porque tinham quem os orientasse e quem os apoiava e pelo seu trabalho recebiam o salário.

Apesar do esforço, o trabalho era feito com gosto de produzir e ter a quinta em perfeitas condições e bem tratada. Os campos eram férteis e produziam em conformidade, os caminhos estavam sempre bem tratados, as levadas de água desimpedidas e assim havia produção bastante.

Como a produção era abundante o Homem sentiu necessidade de construir um celeiro maior...

No ano seguinte a produção foi ainda mais e quase não coube no celeiro. Todos estavam felizes com o resultado do trabalho. Então o Homem viu que ao lado havia terrenos que não eram cultivados e decidiu anexar à quinta esses terrenos para assim poder dar trabalho a mais operários para que com o salário pudessem ganhar o seu sustento. Mais terrenos bem tratados, mais sementeiras, mais produção, mais cereais. Então teve que ser construído um celeiro ainda maior que ficou a abarrotar.

Mas para orientar tantos trabalhadores esse Homem teve que contratar mais capatazes, pois com tudo que tinha já não conseguia orientar tudo sozinho.

Como o celeiro já era enorme precisava de operários permanentes a trabalhar lá, para arrumar, separar o cereal melhor do menos bom e então também precisava de capatazes no celeiro a orientar os trabalhos.

O Homem sabia que esses trabalhadores não eram produtores de mais-valia, mas precisava deles para ter tudo bem organizado. Arrumar o cereal, embalar para vender, seleccionar o cereal e muitas vezes para fazer os negócios que sendo muitos já não conseguia fazer todos sozinho. O celeiro teve mais uma vez que ser aumentado porque os trabalhadores dos campos faziam o trabalho com gosto e a cada ano queriam que a produção fosse maior. Mais operários tiveram que ser contratados para o celeiro e mais capatazes também…

Os trabalhadores dos campos continuavam em mesmo numero, mas o celeiro sendo tão grande já tinha mais operários que nos campos. Os trabalhadores dos campos começaram a perceber que trabalhavam para os outros que não produziam, mas entendiam que eram operários que faziam falta para que tudo corresse bem e que deviam trabalhar para todos terem o salário.

Nesse celeiro houve necessidade de contratar especialistas em contas para que a contabilidade estivesse correcta, pois o volume de negócio era elevado. Então esses contabilistas começaram a fazer contas, a querer saber onde se gastava mais dinheiro e onde se podia economizar para que o negócio fosse rentável.

Já não era o Homem que dirigia a quinta, eram os especialistas em contas.

Eles criaram normas e procedimentos para gerir o negócio. Distribuíam papéis para serem preenchidos com os procedimentos que achava necessários, tanto nos campos como nos restantes trabalhos. Os trabalhadores dos campos ficavam confusos com tantos papéis que nem sabiam para que serviam, o que eles percebiam era de sementeiras e sabiam que para criar aquela riqueza não precisaram de tanta papelada. Mas se não preenchessem algum daqueles papéis os gestores castigavam-nos e até lhes reduziam o salário. Os trabalhadores não entendiam o porquê, mas sabiam que tempo a tratar de papéis, menos tempo a fazer sementeiras.

Como a produção era mais que muita e nos campos tudo corria na perfeição os gestores começaram a achar que não faziam falta tantos trabalhadores nas sementeiras e colheitas e então dispensaram alguns.

Como o celeiro estava a abarrotar de cereal, mais um pouco ou menos não haveria mal, até por vezes a arrumação dentro do celeiro nem era a melhor e até alguns operários levavam consigo um pouco desse cereal pois no meio de tantas toneladas não fazia diferença levar um bocado. E muitas vezes já nem se preocupavam em fazer mais negócios porque havia bastante para tudo e achavam que nunca mais acabava. Havia cereal para tudo… Habituaram-se a levar, ou a não cuidar do cereal dentro do celeiro e por vezes as contas não eram as melhores e os especialistas que tinham que prestar contas ao Homem e as contas das vendas não condiziam com a produção e com os gastos, então tentaram acertas as contas com menos despesas…Então acharam que, como nos campos tudo corria bem, talvez continuasse a correr com menos trabalhadores e assim dispensaram mais alguns.

Os trabalhadores dos campos nem imaginavam que por vezes algum cereal era levado sem que o Homem soubesse e que não revertia a favor de todos, só de alguns… Mas continuavam o trabalho de produção para poderem ter o salário.

Dentro do celeiro a organização já não era a melhor, os gestores não se preocupavam muito com os campos porque não sabiam nada de sementeira nem do que se devia fazer para os campos produzirem, mas queria ser eles a gerir tudo e mais trabalhadores dos campos dispensaram para minimizar as despesas.

Sem trabalhadores suficientes já não se conseguia fazer a manutenção das levadas de água, já não tinham os caminhos perfeitos para transitar e ficava mais difícil levar a produção ao celeiro. Já não havia água suficiente para regar e por conseguinte a produção baixou. Os especialistas em contas acharam que se a produção baixou os trabalhadores não eram competentes apesar de já terem dado provas de bons e então despediram mais alguns e também capatazes. Por conseguinte menos produção, menos manutenção dos campos e a produção descia a cada ano.

Os trabalhadores começaram a perceber que só eles eram dispensados e que no celeiro continuavam todos os operários apesar de já nem todos fazerem falta e alguns até nem fazerem nada, mas eram amigos dos gestores e então ficavam, mas nem do celeiro tratavam e quando era preciso fazer algum trabalho de restauro no celeiro ainda chamavam os trabalhadores dos campos para esses serviços e nessas alturas o trabalho dos campos ficava atrasado e as culturas ressentiam-se e eram cada vez menos.

Os especialistas em contas é que geriam o negócio, mas nada percebiam de sementeiras e nem queriam aconselhar-se com quem sabia por acharem que sabiam de tudo. A produção baixava, os campos mal tratados por incompetência dos gestores, o celeiro precisava de obras que não eram feitas porque os lucros já não permitiam e para equilibrar as contas acharam que deviam reduzir nos custos dos salários e então mais trabalhadores dos campos foram despedidos. Os que ficaram estavam desmotivados porque já não conseguiam fazer todos os trabalhos, viam os campos que tanto gostavam arruinados e eram eles a quem culpavam dessa desgraça quando percebiam que a gestão é que não era a melhor.

O celeiro já quase não tinha cereal e eram um desconsolo ver um celeiro tão grande e vazio, com as portas desengonçadas, janelas partidas, instalação eléctrica que mal funcionava. Os trabalhadores dos campos não percebiam como o Homem ainda dava crédito aos gestores e que apesar de o negócio estar mal e não haver cereal e fundos, os gestores continuavam a andar com bons carros quando diziam que não havia dinheiro para sementeiras, manutenção dos campos e levadas para a água de rega, nem para reparar as portas, janelas e instalação eléctrica do celeiro.

Aquela quinta que o Homem criou com tanto carinho estava um caos devido à incompetência dos gestores nos negócios, que não queria aconselhar-se com quem sabia de sementeiras e tinha experiência com provas dadas.

Um dia um temporal abalou a região, chuvas e trovoadas torrenciais abateram-se sobre o celeiro, o telhado não aguentou e a chuva invadiu o que restava do cereal armazenado, portas e janelas deixavam entrar o vento e chuva, a instalação eléctrica que não tinha manutenção criou um curto-circuito e incendiou o celeiro. Os operários do celeiro entraram em pânico e sem saber como lidar com as adversidades fugiram a grande velocidade nos bons carros que tinham…

E quem teve que vir apagar incêndio no celeiro ainda foram os trabalhadores dos campos que com a sua experiência em trabalho e sacrifício lutaram para que o que restava do celeiro não acabasse completamente…

 

Numa quinta todos fazem falta… Desde o trabalhador mais simples até ao operário mais qualificado… Todos são importantes por igual… E cada um é especialista na função que lhe compete. E todos têm uma palavra a dizer na gestão da quinta.

 

 

Qualquer semelhança com realidade é pura coincidência…

 

 

 Mas onde é que eu já vi isto???

Publicado por Palavras Soltas às 22:16
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