Sábado, 30 de Junho de 2012

VIAGEM DE LUANDA AO HUAMBO:

VIAGEM DE LUANDA AO HUAMBO:


Manhã de 16 de Maio de 2012 – Luanda.

9 horas da manhã, entro na estrada rumo ao sul. Destino Huambo no planalto central de Angola.

É preciso ir ao Huambo tratar de uma avaria num gerador de corrente eléctrica que está com “tosse”. E também preparar uma máquina para ir fazer trabalho para outras paragens de África.

Estrada com pouco mais de uns 7 metros de largura, não deixa muito espaço de manobra para condução e o cruzar com um camião pode ser uma manobra que requer alguma tranquilidade, sangue frio ao volante e medição mental certa da largura da estrada. Nestas estradas não há muito espaço para erros de condução. Mas a gente habitua-se e fazer estas viagens torna-se natural.

Passa-se por Catete e a estrada estica-se até ao Dondo. No final daquela reta é Maria Teresa e ali no cruzamento para Malange as autoridade estão sempre presentes. E desta vez passo sem que me mandem parar. Talvez um carro cheio de chineses tenha mais interesse do que o meu que vai rolando nas calmas. Entro na via, chamada “auto-estrada” chinesa e sigo. O Dondo aparece lá à frente e é hora de parar um pouco nas bombas de abastecimento. Não para abastecer o carro, mas sim para abastecer a barriga que já estava a pedir alguma coisa. Ali nesse restaurante comem-se dos melhores pregos no pão da região. Pelo menos parecem os melhores. A fome também faz ter essa ilusão. Mas é preciso abastecer a barriga porque dali até bem longe não haverá mais nada pra meter no bucho.

Feita esta paragem “religiosa” metemo-nos no carro e a estrada é outra vez companhia inseparável durante muitos quilómetros. O meu companheiro de viagem pegou num cigarro e acendeu, eu fiz o mesmo e a música ouvia-se. As rodas rolavam ouvindo-se o “cantar” dos pneus no asfalto quente e a paisagem passava rápido. Ali passava por uma das zonas que mais gosto de passar. Vegetação bem tropical. Palmeiras, bananeiras e uma e outra granja de cultivo. Atravesso uma pequena ponte e o Luis disse:

- Olha, vou dormir um bocado e quando estiveres cansado diz que eu conduzo.

- Fica à vontade que eu estou bem e esta música está agradável. Ali a estrada é, ou parece mais estreita pela vegetação que quase invade o asfalto. Estrada mais sinuosa e o piso está razoável, já repararam os buracos que ali haviam durante vários quilómetros.

Os Abba cantavam e o carro rolava, a curva aproximou-se e ali estava o monstro de 14 rodas que vinha em sentido contrário e parece que tapava toda a estrada sem deixar espaço para a Hilux que rolava a 90km/h passar… O sangue ferveu nas veias, a adrenalina subiu a níveis altamente perigosos, a pele ficou arrepiada e o suor frio molhou a pele… A passagem de mudança de 4ª para 3ª foi rápida, o acelerador foi pisado de imediato para melhor controlar o carro que foi apontado para o único espaço que era possível passar… A Toyota com o motor a rugir e sem sinal de travões, que travar numa hora dessas é morte do “artista”, segurou-se com os pneus ao asfalto da estrada e percorreu o trajecto que a mente do condutor traçou… Do lado direito o capim batia na chapa da carrinha que do outro quase tirava tinta da carroceria do camião que carregava um contentor de 40 pés…E a Toyota lá passou pelo espaço que havia para passar e seguiu viagem. A adrenalina baixou, o arrepio desvaneceu-se, os Abba continuaram a cantar como se nada se tivesse passado, o colega que dormitava ao lado nem acordou e a viagem seguiu tranquila.

Acendi um cigarro para relaxar e não pensar mais no “mostro” de 14 rodas… E porque me dá prazer fumar um cigarro a conduzir.

Pela estrada olhava e via o que tinha acontecido aquela Terra. De longe, a longe veem-se as casas dos cantoneiros que outrora faziam a manutenção da estrada ao longo destes tantos quilómetros, desde Luanda até ao Huambo. Casas essas que estão em ruinas. Que pena!!!. Eu acho-as tão engraçadas…(diria, catitas…) Mas o abandono fez destas casa uma memória triste. Penso para comigo que os cantoneiros dessa altura passavam longos tempos sozinhos limpando e ajeitando a estrada. Mas em compensação tinham uma casa nos sítios mais agradáveis nesse trajeto. Porque essas casas estão todas bem situadas.

Ao passar olhei a ravina que guarda restos de carrocerias de camiões e autocarros que tantas vezes caem ali. Já ali vi “enterrado” nessa ravina, que fica no final de uma descida em curva, um autocarro novo que ali caiu cheio de passageiros e todos se foram. Arrepiei-me quando uns meses atrás, vi aquela viatura nova de cinquenta lugares, que teve ali o seu fim. Passo e a Toyota custa-lhe subir aquele declive da estrada. Já não é nova. Mas lá vai sem me comprometer a viagem. E ali mesmo foi construído um edifício de apoio à sinistralidade rodoviária. Não creio ser ironia, mas sim porque esse apoio é sensivelmente a meio caminho entre Luanda e Huambo e num dos sítios com mais sinistralidade.

A Quibala aproximava-se, já não faltavam muitos quilómetros. Poucos quilómetros, pode querer dizer uns 50 ou 60, ou até 100… A reta era comprida por aquela savana fora… O capim ladeava a estrada que ali estava com bom asfalto. O capim já quer invadir o asfalto, acha que deve ocupar todos os espaços livres. Mas ali passam carros e camiões sempre em contínuo. A passagem das viaturas faz com que o capim alto fique a ondular tal como as ondas do mar… Eu gosto de ver pelo retrovisor o capim a balançar quando passo rasante a ele… Ver aquelas ondulações é como que ver ondas do mar onde apetece mergulhar e o calor até é convidativo a dar um mergulho, mas ali o mar está longe e o melhor então é seguir viagem vendo as ondas do capim… O Luis dormitava ao lado. Vidro da janela aberto e braço apoiado para fora da janela do carro. Apesar do carro ter ar condicionado, raramente ligo nas viagens. Gosto de sentir o zunir do vento com a velocidade do carro e sentir o calor e cheiro da terra. O Luis é como eu e então as viagens na companhia dele são agradáveis, até porque temos sempre bons temas de conversa… (quando ele não dormita, ou se vai ele a conduzir não vou eu a dormitar… gostamos de conversar um com o outro…) Agora ele dormitava e o carro passava rasando o capim que balançava à passagem… O capim com uns dois metros de altura balançou, bateu-lhe no braço e ele acordou.

- Que aconteceu pra ires assim rente ao capim?

- Gosto de ver o capim a balançar quando o carro passa. E eu sorri.

- Pois, está bem, mas nem tanto porque até me bateu no braço. És doido?

- Sou um pouco doido sim… E isso é para sentires África…

- Está bem. Eu gosto de sentir áfrica mas assim na pele não…

Sorrimos e cada um acendeu um cigarro. A conversa foi seguindo sobre a paisagem e principalmente sobre o problema que tínhamos que resolver no Huambo. Uma máquina que está parada há dois anos e que é preciso colocar em ordem para ir trabalhar para Moçambique e sobre o gerador que parou e deixou uma britadeira sem partir pedra. Passados mais uns quilómetros o meu companheiro de viagem deixou-se embalar pela música e voltou a fechar os olhos com preguiça.

A Quibala surgiu e passei sem parar no sítio onde por vezes paramos para saborear uma cerveja. Cruzamento da Gabela e eu olho. - “Um dia haverei de ir outra vez à gabela”- Pensei.

Mais estrada… E mais estrada… Vou pensando com o s meus botões que esta estrada até ao Huambo é muito comprida. E ora vai zigazeando pelas encostas como uma serpente, ora se estende pela savana como uma longa fita de aço que brilha ao sol. Ali a Toyota descrevia as curvas e contra curvas com certa velocidade, mas é que já passava das 13 horas e o Waco Kungo, (Cela) ainda estava longe. Dizia a minha avó, que quando temos fome a barriga comanda a perna. E ali era o pé do acelerador que era comandado. Passo aquela curva e surge a reta até ao Wuaco Kungo. 120 K/h era velocidade razoável e abrando ao entrar na cidade. O Luis abriu os olhos e perguntou. (este companheiro hoje dorme demais. Penso eu…)

- Onde estamos?

Para brincar um pouco disse. – Estamos a chegar à Quibala.

- Andamos bem. Disse ele.

- Pois andamos e tu hoje só dormes. Estamos no Waco, a Quibala já ficou para trás há muito tempo. E agora vou parar para comer.

Entramos na cidade e junto do edifício do governo almoçamos.

Novamente estrada e dali até ao Huambo vai ser sem parar.

Cruzamento do Cassongue. Até ali, vai chegar uma estrada nova desde o Bailundo.

Olho a paisagem que vai passando como filme. Olho à distância e vejo aldeias com os seus habitantes, não vejo os habitantes, mas sei que lá estão cuidando dos seus afazeres, eles também não sabem nem fazem ideia que ali vai um carro com dois ocupantes que trabalham nesta terra para tentar melhorar a vida deles. E assim todos fazemos parte deste mundo. Nem todos sabem de todos, mas todos fazem falta para a construção do mundo, por mais pequenos que sejam.

Mais uma reta, é que em Angola as estradas têm retas longas, não sei se sabiam.

Vejo ao longe o “pináculo” da montanha de rocha que assinala que o Alto Hama está perto, uns 50 kms. O sol da tarde vai caindo e tinge de alaranjado aquela imensa paisagem. Assim com essa cor fica com uma beleza sem igual. E penso: Fantástico!

Na subida, ultrapasso na estrada estreita um camião que vai em marcha lenta. Depois da subida vejo lá ao fundo as Água Quentes do Alto Hama. Um dia paro aqui, mas hoje não posso perder mais tempo, pois esta viagem hoje está mais demorada que normalmente, é que deixei de fazer “corridas” nas estradas desde que um colega meu teve um grave percalço. Acho que foi um aviso para todos os que andam na estrada.

Alto Hama… Cruzamento daquela estrada que vai até ao Lobito. Eu, também gosto do Lobito e Benguela. (um dia, quem sabe, eu “viajo” (num escrito) com vocês até Benguela.) Olho para essa estrada………………..

A janela do carro aberta e sente-se o fresco da aragem. Já se sente o ar do Planalto central de Angola. É fim da tarde e o fresco sente-se na pele. Passo o cruzamento para o Bailundo e a Chipipa é já ali. Ao passar na Chipipa duas cabritas fazem-me travar a fundo. É que ali não há passadeiras e as cabras nem conhecem o código de estrada e atravessam onde lhes apetece e quando querem.

Mais uns quilómetros e avisto a pedra da Cuca. Sobe-se a colina e a pedra da Cuca imponente fica ao lado. Viro à direita e o local da intervenção é ali.

Vamos directos até junto do gerador que estava ali quietinho em silêncio. Parece que não queria que a britadeira trabalhasse para não fazer barulho. Mas nós não estávamos ali para ele descansar.

Fim da viagem, mas não do dia de trabalho. E não estávamos ali com 600kms percorridos para deixar aquele gerador “caladinho”.

Abrimos a porta do quadro de comando e o Luis carregou no sensor verde e o motor potente roncou e ficou a trabalhar serenamente como deve ser. Reparamos nos indicadores de tensão e intensidade e confirmamos que estava com alguma “doença” sim. Mas um ajuste ligeiro e deixou-o melhorzinho.

- Liga a britadeira. Dissemos ao homem responsável.

Ele lá ligou aquela máquina maluca de partir pedra e ela lá foi cumprindo as funções. Fazendo as pedras grandes, em pequenas.

O gerador lá se aguentava, mas não estava bom. Dava para trabalhar. Teríamos que resolver o problema amanhã.

Agora vamos descansar que a noite já chegou e ver se a Lu tem alguma coisa para nós comermos.

 

Foi mais uma “aventura” por Terras de Angola.

Publicado por Palavras Soltas às 11:34
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
3 comentários:
De Anónimo a 26 de Março de 2013 às 15:11
LINDA HISTORIA...BASTANTE ENCANTADORA.....SIMPLES E EXPECTACULAR...
De Samora Valério a 26 de Março de 2013 às 15:17
LINDA HISTORIA...BASTANTE ENCANTADORA.....SIMPLES E EXPECTACULAR...




De Ernesto daniel a 18 de Junho de 2014 às 18:10
Jaque euvivo nestazona janao veijo oquedizr porq aquilo euma maravilha.+convido aosque naoconhesem avir visitar olocal deond e ositio.maravilha. Daqui eo black one.onelove paratodos osque conhecsem.etambem qnao conhecem tambem one love yheamanos.fuiii fuiui

Comentar post

~Mais sobre mim

~Pesquisar neste blog

 

~Novembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

~Posts recentes

~ Viagem Luanda Huambo…(fic...

~ Do Huambo a Benguela _ 30...

~ A Capulana...(continuação...

~ A Capulana

~ VIAGEM DE LUANDA AO HUAMB...

~ 23:30 horas do dia 25 De ...

~ Uma opinião sobre aquela ...

~ O dia seguinte: (depois d...

~ Pensamentos Profundos est...

~ VANTAGEM DE NAMORAR UM BA...

~ Será que mereço o 12º ano...

~ É Bom Sentir...

~ A quinta do Homem...

~ COMO CHAMAR A POLÍCIA EM ...

~ Uma Viagem de Huambo a Be...

~ Um pensamento sobre Ilha ...

~ Dá para meditar um pouco.

~ “Fim-de-semana alucinante...

~ Cabo Verde

~ África... Como uma Mulher...

~Arquivos

~ Novembro 2015

~ Fevereiro 2013

~ Outubro 2012

~ Agosto 2012

~ Junho 2012

~ Junho 2011

~ Março 2011

~ Janeiro 2011

~ Dezembro 2010

~ Novembro 2010

~ Outubro 2010

~ Setembro 2010

~ Agosto 2010

~ Julho 2010

~ Junho 2010

~ Dezembro 2009

~ Junho 2009

~ Março 2009

~ Fevereiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Outubro 2008

~ Setembro 2008

~ Maio 2008

~ Março 2008

~ Dezembro 2007

~ Novembro 2007

~ Agosto 2007

~ Fevereiro 2007

~ Dezembro 2006

~ Novembro 2006

~ Outubro 2006

~Links

~6

6

~5

5

~4

4

~3

3

~2

2

~Outras coisas

1
blogs SAPO

~O Sapito

~subscrever feeds