Terça-feira, 14 de Agosto de 2012

A Capulana

 

6 Horas da manhã… O despertador toca… Levantou-se porque tinha uma viagem a fazer. Quase 600km de condução e hoje nem estava com muito espirito para viajar…

Depois de tomar um banho e enquanto se preparava o telefone tocou… Uma mensagem chegou. “ – Como te prometi, cheguei!... Estou no aeroporto. Gostava que viesses buscar-me…”

Tremeu… Sabia que um dia ela haveria de chegar… Respondeu à mensagem: - Sim. Vou buscar-te. Espera-me que eu vou…

Saiu, meteu-se no carro e dirigiu-se para o aeroporto. Ao chegar ela já o esperava fora da aerogare… Cabelo não muito comprido, blusa leve e uma saia rodada pelo joelho… Olhou-a e sorriu…

Parou o carro e saiu… Olharam-se… Deram um abraço longo e apertado…

Depois meteram as malas no carro e o carro seguiu pelas ruas da cidade. O trânsito aquela hora estava intenso. Por entre os carros que procuravam chegar cada um primeiro que o outro, ele conduzia com cuidado. Pararam para tomar uma leve refeição e depois seguiram pela estrada rumo ao sul…

O sol, aquela hora já fazia sentir o seu calor de África. Ela disse:

- Que saudades, deste calor africano.

- Já tinha saudades de ti. Pensei que não te veria mais e muito menos aqui.

Sorriram. E o carro seguia pela estrada com o ruido dos pneus no asfalto a fazer-se ouvir… Ela abriu a janela do carro e deixou que o vento lhe fizesse esvoaçar o cabelo. A blusa leve tinha o decote aberto e a brisa fazia o tecido ondular e ele viu-lhe o vale entre os seios moldados pelo soutien…

Ele pensou: - Que linda imagem a desta mulher assim… Olhou-a de cima a baixo e com os olhos sentiu-lhe o corpo… A saia leve e curta mostrava-lhe as pernas de contornos suaves e sensuais… Voltou a pensar: - Este corpo ficava sensual embrulhado numa capulana africana…

Há muito tempo tinha comprado uma capulana que o acompanhava sempre como que fosse essa mulher que agora estava ali ao seu lado para fazer a viagem que tantas vezes tinha feito sozinho.

O carro seguia com velocidade regular e ela extasiava-se com as paisagens que tantas vezes tinha sonhado… Seguiam em silêncio… Cada um com os seus pensamentos… Por ali a paisagem de imbondeiros imponentes mostrava a sua pujança de África.

Muitos quilómetros depois a paisagem mudava, atrás ficou uma paisagem mais irregular de montanhas e ondulações por onde a estrada serpenteava. Agora a paisagem era mais plana. Paisagem que agora deixava ver o horizonte até longínquos quilómetros em redor…

O sol fazia-se sentir com o calor intenso natural daquelas paragens. A pressa de chegar não impediu que o carro parasse ao pedido dela para sair e poder sentir o cheiro da terra africana de que tantas saudades sentira.

Ela saiu do carro num sítio onde se podia ver a savana até quilómetros em redor. Abriu os braços como a querer abraçar aquela Terra. Terra por quem nutria um amor que só quem ali viveu é capaz de sentir.

Ele via-a ali parada e pensou que nunca imaginou que aquela mulher sentisse assim tanto apego aquela Terra. Olhava-a e pensou que então devia vesti-la com as cores africanas e foi buscar a capulana que tinha guardada e colocou-lha aos ombros. Ela ao sentir esse gesto dele olhou-o por cima do ombro, sorriu-lhe e com as mãos ajustou esse pano tão característico de Terras de África. Voltou para o carro e deixou-a ali como que fazendo parte dessa paisagem e pensou que assim com essa mulher ali a paisagem era mais bela. E soube que por muitas vezes que ali passasse nunca mais esqueceria essa imagem… Uma mulher branca de capulana tentando abraçar aquela terra.

Quando ela voltou, ele reparou que na mão trazia a blusa e pelos ombros só a capulana lhe envolvia o corpo…

Ao entrar no carro ela cingiu mais a capulana ao corpo e recostou-se no banco do carro…

Ele olhou-a mais uma vez e entre a abertura da capulana viu-lhe as pernas que sobressaiam e controlou a vontade de lhe tocar…

- Vamos seguir? Disse ela.

- Sim, vamos que falta ainda muitos quilómetros até chegar.

Os quilómetros passavam… Ela recostada no banco do carro via agora o que tanto sonhava…

A noite já vinha caindo e com ela trazia a lua que se erguia no horizonte lá longe… Lindo espetáculo e momento de contemplar…

Mais uma vez o carro parou para aquele dois saírem e ficarem ali a sentir o cheiro da savana sobe a luz do luar…

Abraçaram-se como se tivessem perdido o tempo… Ali ficaram a sentir o calor da terra e os corpos a tremer…

Quando o carro entrou na cidade era já noite, as luzes iluminavam as ruas que ela tão bem conhecia dos tempos que ali passava. Ruas um pouco diferentes mas que lhe lembravam os tempos e avivaram as memórias perdidas…

O carro rodou lentamente pelas ruas e ela embrulhada na capulana sentia a saudade e deixou uma lágrima correr pelo rosto…

Ele em silêncio com a ponta dos dedos limpou-lhe a lágrima que caía e sorriram…

Deixou-a em frente ao hotel onde devia ficar e despediram-se com um abraço apertado…

Entrou no hotel a foi para o quarto destinado. Embrulhada na capulana sentia o toque das mãos dele no abraço que deram em plena savana…

 

Publicado por Palavras Soltas às 21:23
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1 comentário:
De Anónimo a 18 de Agosto de 2012 às 04:44
O sinônimo mais próximo para saudade é lágrima que cai e abençoa, de certa forma, o chão, a pátria, a sua terra natal...o abraço mais carinhoso e confortante foi dado pela capulana que a envolveu e tornou-a uma parte daquele todo . O quadro estava agora completo pelas mãos do autor deste blog. O que dizer, que palavras utilizar....? Talvez o espírito de que estavas embuído ao escreveres este conto, seja o mais próximo do retrato real de quem viveu nesse país e a ele retorna. Imagens com palavras que transbordam emoção real...não é para qualquer pessoa que escreve, é para alguém que como tu colocou a alma nas palavras.....parabéns pela pintura em palavras e obrigada pela emoção e prazer em ler este belo retrato do reviver uma terra.

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