Sábado, 6 de Outubro de 2012

A Capulana...(continuação)...

...A Capulana...(continuação)...


O carro seguia pelas ruas da cidade.

Sem ser noite muito avançada, as ruas estava quase desertas aquela hora da noite. As rodas do carro rolavam devagar e mal se percebia o ruido no movimento da viatura…

O condutor sem escolher o caminho, o instinto levava-o pela cidade sem destino… O carro desceu a rua comprida, um ou outro carro passava com pressa… Ele seguia sem destino fumando um cigarro lentamente… Passou em frente do hotel e instintivamente olhou para as janelas, viu que uma estava iluminada e no seu peito sentiu a pulsação mais acelerada… Passou sem se deter e ao final da rua voltou a subir…

Depois de um banho retemperador, deitou-se sobre a cama e aconchegou a capulana ao corpo nu... A noite estava quente… Não conseguia conciliar o sono apesar de sentir cansaço no corpo… Rolou na cama e o tecido colorido soltou-se e deixou-lhe um seio desnudado, as pernas despidas e um pouco fletidas… Ficou assim algum tempo sobre a cama olhando a janela aberta nessa noite quente …

Sentia uma ansiedade, levantou-se, enrolou a capulana no corpo e foi até à janela do quarto que estava aberta sobre a rua… Olhou o céu estrelado dessa noite escura de África.

Um carro descia lentamente pela rua, os faróis iluminavam e ela reconheceu o carro que a trouxe na viagem até ali… O carro passou lento e ela ficou a olhar a trajetória que tomava. Viu que ao fundo da rua o carro voltava e ficou esperando…

Subia a rua lentamente e ao chegar junto do hotel viu que alguém estava à janela. Reconheceu-a de imediato embrulhada na capulana… Parou o carro e ficaram a olhar-se ao longe. Ele do outro lado da rua e ela à janela do hotel… Mesmo na noite os olhos falavam… Ele saiu e ficou encostado ao carro. Olhavam-se ao longe… Acendeu um cigarro e ficou a fumar calmamente. O fumo subia em espiral nessa noite e ela teve o desejo de sentir junto dele o aroma do tabaco naqueles lábios…

Dentro do quarto ela sentiu uma força que a impelia e saiu… Desceu as escadas, atravessou o hall da entrada e saiu para a rua.

Dou outro lado da rua, lá estava ele encostado ao carro… Atravessou a rua quase a correr e parou bem junto dele que quase lhe sentia a respiração no rosto. Ele olhou-a nos olhos e disse:

- Queres vir comigo?

- Onde queres levar-me?

- Vamos por aí. Queria estar esta noite contigo. Amanhã vou viajar novamente e não sei quando te verei outra vez.

- Mas tu não páras muito tempo num sítio só? Já vais de viagem?

- Sabes, é a minha vida errante… Mas espero voltar e ainda te encontrar. Vem comigo…

Ela sorriu e entraram no carro que arrancou pela rua. Depois virou e seguiu pela estrada que entrava pela savana imensa…

- Onde me levas?

- Não te vou raptar… Vamos ver a noite na savana, é das coisas que mais gosto em África… Sentir a noite e todos os murmúrios da savana…

Ele olhou-a e sorriu-lhe. Via-a embrulhada na capulana e adivinhou-lhe o corpo nu debaixo do pano colorido. Pelos ombros a capulana envolvia-lhe o corpo, ela prendia com as mãos na frente do peito e sentada no carro a capulana deixava as pernas nuas aos olhos dele que tremeu com essa visão.

O carro seguiu nessa noite quente de África durante alguns quilómetros até onde a savana se podia avistar em ampla extensão.

Ao passar viam-se a casas de adobe ali tão características. Um ou outra fogueira ainda acesas davam alguma claridade à noite e criavam sombras místicas entre as árvores circundantes. O carro seguia quase em silêncio com eles dentro. Ela abriu um pouco a janela e o vento quente bateu-lhe no rosto e sentiu o cheiro de áfrica e daquela Terra… Olhou-o e via-o a conduzir olhando a estrada que se embrenhava pela savana sem fim…Viu-o fazer um movimento que lhe pareceu instintivo. Ele pegou no maço de cigarros pousado no painel do carro, devia ser o sítio de sempre do maço de cigarros, pois ele pegou sem olhar e ficou com o maço na mão dando voltas como que acariciando um corpo… Ela via-lhe o gesto e pensou com desejo, que gostava de sentir aquelas mãos no seu corpo… Este pensamento fez-lhe arrepiar o corpo e quase sentiu um tremor que conteve a tempo de ele perceber…

Levava o cigarro aos lábios e soltava o fumo lentamente, o fumo dava uma volta dentro do carro e saía pela janela perdendo-se no ar africano, pensava que queria que aquela mulher se perdesse nos seus braços…

Os quilómetros passaram e o carro virou para uma clareira entre algumas árvores que ali existiam e parou sobre uma pequena colina de onde se avistava a savana em grande extensão. A noite estava escura e as estrelas no céu. Os olhos habituaram-se ao escuro e conseguiam divisar a savana mística… Uma ave passou em voo rasante ouvindo-se o esvoaçar das asas… Ao longe algum animal noturno gritou… Eram os murmúrios da savana Africana…

Saíram do carro e ficaram a ouvir e sentir aquela magia que os envolvia… Estavam encostados ao carro sentindo todo o aroma que pairava no ar… Ele colocou-lhe a mão no ombro e ela encostou-se recostando a cabeça no ombro dele sentindo-lhe a pulsação no peito… A capulana descaiu e um ombro ficou nu. A mão dele pousou sobre a pele macia e ela tremeu… Depois deu alguns passos e sobre a pequena colina olhava aquela imensidão até onde os olhos conseguiam ver nessa noite somente iluminada pelas estrelas… Fechou os olhos e viu toda aquela savana que nos prende quando assim, sentindo, fechamos os olhos e a vemos com o coração…

Abriu os braços com a capulana presa nas mãos como que querendo abraçar tudo em redor… Ele por detrás dela via-a como uma fada. Talvez uma fada que lhe fazia sentir toda aquela magia… E nessa imensidão sentiu-se pequenino pensando que a todo o momento aquela mulher assim nessa postura podia elevar-se voar e desaparecer da sua vista… Sentiu um tremor se isso assim se passasse… A capulana assim estendida deixava-lhe ver os ombros dela… Via-a como uma pérola… Bela… Aproximou-se e rodeou-lhe o corpo com os braços sentindo-lhe a pele da barriga nas mãos… Soube nesse gesto que o corpo dela estava nu debaixo do pano colorido de África… Ela desceu as mãos que pousou sobre as dele acompanhando os movimentos das mãos dele no seu corpo… Ao ouvido ele segredou-lhe:

- Nesta imensidão de terra somos como pequenas formigas…

- Adoro estar aqui contigo… Obrigado por me trazeres…

Aquele calor dessa noite era premonitório… Uma tempestade aproximava-se… Lá ao longe um relâmpago iluminou o céu da noite escura. Um raio vertiginoso rasgou o céu e momentos depois um trovão fez-se ouvir… Assim abraçados nem se mexeram, parece que pressentiam e desejavam aquele trovão… Novo relâmpago rasgou o céu de alto a baixo com o raio a desenhar curvas no céu e perder-se no chão lá ao longe… Ele apertou-lhe mais o corpo e ela aconchegou-se no dele… A capulana caiu estendida no chão e eles ficaram sobre ela… Como que quisessem sentir no corpo aquela terra misteriosa…

A tempestade aproximou-se com a chuva quente que as nuvens deixavam cair sobre a terra… A chuva que também caiu sobre eles que se davam um ao outro com vertiginoso desejo de se sentirem e terem sobre aquela terra… A chuva molhava-lhes os corpos unidos como que sendo um só… Novo relâmpago rasgou o céu e do peito deles ouviu-se um grito como que em uníssono com toda essa magia misteriosa da savana africana em noite escura…

Ali ficaram algum tempo abraçados sobre a terra vermelha… Sentindo o cheiro da terra molhada… Sentindo o cheiro dos corpos molhados pela chuva quente que só ali se sente como em mais lugar nenhum…
Ali ficaram sentindo toda a magia que os envolvia… Ali abraçados deixaram o dia nascer vendo o lindo nascer do sol que só ali tem mais encanto…

Horas depois o carro deslizava e entrava quase silencioso pelas ruas da cidade e parou em frente do hotel com o dia já nascido… Deles nasceu um carinho imenso que não mais iriam esquecer mesmo que nunca mais se vissem… Despediram-se em silêncio com um sorriso nos lábios a iluminar-lhes os rostos…

Quando entrava no hotel virou-se e perguntou-lhe.

- Quando te volto a ver?

- Não sei… Deixa o tempo se encarregar disso. Mas uma coisa tem sempre presente… Foste uma das coisas mais belas que me aconteceu… E como formigas vamos andando por aí que um dia havemos de nos encontrar para nos abraçarmos…

Ela embrulhada na capulana molhada entrou e foi para o seu quarto pensando que foi dos momentos lindos que teve e nunca mais havia de esquecer…

O carro seguiu com ele dentro pensando que um dia havia de voltar a encontra-la… Para a abraçar…

Publicado por Palavras Soltas às 23:06
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