Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Cabo Verde

Cabo Verde. Outra vez África, mas uma realidade completamente diferente. Cabo Verde nada tem a ver com Angola. Se Angola tinha tudo e tem condições para voltar a ser o que era. Em Cabo Verde falta tudo. Bem, não falta a simpatia das pessoas. De Cabo Verde gostava de escrever aqui as impressões que tive e que, naqueles dias por lá escrevi no caderno que sempre me acompanha para ir registando o que sinto em cada momento.

Duas horas da madrugada do dia 15 de Fevereiro de 2008. O avião inicia a descida no céu escuro sobre o oceano que banha estas Ilhas plantadas no meio do Atlântico. Ao longe, a lua iluminada no céu, divisavam-se em baixo as luzes da cidade da Praia. Ouve-se o trem de aterragem a abrir e momentos depois as rodas do avião tocam a pista, os travões reduzem a velocidade e junto da aerogare o avião imobiliza-se. Os passageiros saem, é feito o controlo, entre dificuldades de alguns, eu passo sem problemas, um carimbo no passaporte e o agente da autoridade manda-me passar. Depois das poucas horas de sono nessa noite, chega a oportunidade de visitar um pouco desta Ilha de S. Tiago e iniciar, como me disse uma pessoa amiga, mais uma aventura minha. Alguns quilómetros para o interior e, esta Terra vai-se revelando aos meus olhos. Ilha vulcânica e montanhosa, onde a estrada serpenteia contornando as encostas e ladeiras em curvas e contra-curvas, como uma enorme serpente (animal que por aqueles lados não existe ou é muito raro aparecer), que vai ondulando no seu trajecto. Chegamos a Pedra Badejo, vilazinha entalada entre serras, que nuas de vegetação mostram a sua cor escura que o vulcão deu a esta Terra, parece que deu a mesma cor aos naturais, cor acastanhada. Pele de tez castanho-escuro, onde se realça a beleza do olhar em rostos que se abrem em simpatia e corpos com graciosidade no caminhar. Corpos femininos que aprenderam a ondular, talvez imitando as ondas do mar que sempre manso banha as praias. Corpos que, parece imitam as montanhas que se desenham no horizonte em curvas graciosas. Nada contrasta, a paisagem em harmonia com a cor da pele, e, até algumas praias não quiseram deixar essa cor e apresentam a areia escura. No dia seguinte é tempo de seguir para outra Ilha. Ilha do Maio, que se avista a cerca de vinte quilómetros da cidade da Praia. O meio de transporte é o barco. ‘Barlavento’ é o Barco, que em tempos mais antigos creio ter sido barco de pesca. Esperam-me três horas dentro daquele barco, sobre aquele mar azul de água límpida e transparente, onde, por vezes, golfinhos acompanham a viagem. Barco que carrega tudo. Enquanto espero, já sentado no banco corrido, na parte de cima e virado lateralmente para as águas, vejo a carga do barco ser feita. Pessoas, carga de materiais de construção, animais que também fazem falta na outra ilha, máquinas, bens essenciais para a alimentação das pessoas que vivem na Ilha do Maio, o barco carrega tudo o que se possa imaginar. Tudo é carregado numa mistura que daria um quadro a um pintor. Uma mistura de pessoas de várias classes sociais, ali são todos iguais, não há classe executiva nem económica, quem chegou primeiro senta-se, quem chega atrasado vai em pé para a travessia de três horas. Sentado no meu lugar olho o mar, o barco parece um berço com o balanço das ondas, o motor velhinho vai ronronando para impulsionar o velhinho barco sempre em frente. Com uma criança ao colo senta-se ao meu lado uma senhora de olhar vivo e rosto simpático, a pele da cor daquelas terras mais beleza lhe dava. A criança devia ter sido também impregnada dessa simpatia, pois sentiu-se bem ao meu lado, enquanto eu conversava com a senhora, que era a avó, apoiou-se na minha perna e com um sorriso inocente de criança, ia dizendo em brincadeira. – Eu vou com o tio. Sorri… Na conversa que se criou entre nós, eu e a avó da criança simpática, soube mais coisas de Cabo Verde. Fiquei a saber que estas Terras, quando chove, e passado um dia ou dois, ficam verdes e as montanhas escuras iluminam-se com verde. Talvez daí o nome Cabo Verde. Ali naquele barco velhinho soube também o que é cachupa. Cachupa, é um prato tradicional de Cabo Verde, idêntico à sopa da pedra, disse-me um senhor que entretanto tinha também entrado na conversa. Cachupa, eles chamam ao milho. E ali no meio do oceano entre duas ilhas de Cabo Verde, dentro de um velho barco, fiquei a saber que alguém lá tão longe, conhecia a sopa da pedra de Portugal e eu não. Nunca imaginei que ali ao balanço das ondas, alguém me falaria da sopa da pedra. É incrível este mundo, as viagens são assim. O tempo ia passando devagar, como devagar o barco deslizava nas águas, mais algum tempo e surgiram as primeiras casas da ilha do Maio. O barco fez as manobras para ancorar ao cais e todos se prepararam para sair, eu fiquei mais algum tempo a olhar aquela ilha que se apresentava aos meus olhos. A costa de imensa praia para ambos os lados do ancoradouro, com a água azul transparente a desfazer-se em ondas nessa areia branca da praia, que ficava ainda mais bela com o rendilhado da espuma que as ondas estendiam como convite a deitarmo-nos ali e esquecer o mundo. Sim, porque ali parece que o mundo parou. Parece outro mundo, um mundo perdido no meio do oceano, mas que só deve ser encontrado por quem consiga contemplar e sentir esta beleza tão peculiar, desta gente e destas paisagens. A paisagem nesta ilha do Maio, mostra-se escura e agreste, em contraste com as margens da beira-mar, que é suave e branca. Um contraste em que nos esquecemos do tempo ao contemplar.
Não podia esquecer-me que fui ali para efectuar um trabalho e assim tinha que me abster um pouco destas belezas. Lá fui então para o local de trabalho. Ali nessa Ilha do Maio, conheci pessoas, fiz amigos e deixei saudades. No pequeno restaurante onde fazia as refeições, fiquei amigo da dona e também excelente cozinheira, então pedi que confeccionasse os variados pratos que compõe a gastronomia de Cabo Verde. Amavelmente, a Gabi acedeu, assim se chama a “cozinheira” e, assim pude saborear a cachupa, uns excelentes bifes de atum, lagosta grelhada e suada, peixe-serra, búzio e mandioca… O peixe vai-se buscar ali à praia ao lado, onde os pescadores chegam a cada momento nos seus minúsculos barcos. Essa Ilha do Maio pertencente ao Arquipélago de Cabo Verde, é uma pequena ilha onde falta tudo, lá não se produz nada, quase há três anos que não chove. Mas existe uma beleza natural que me encantou. Tanto nas paisagens como nas pessoas. Lá deixei amigos e saudades. Depois desta primeira viagem regressei lá outra vez, revi amigos e matei saudades. Pude passear e contemplar as paisagens agrestes, mas que eu acho, tem muita beleza. Um dia mostraram-me um livro de Gonçalo Cadilhe, “A Lua Pode Esperar”. Nesse livro ao ler eu viajei. Ali Gonçalo Cadilhe diz que para podermos contemplar as belezas naturais de cada sítio, devemos viajar sozinhos, eu digo que sozinhos talvez não, mas com quem consiga sentir o mesmo que nós sentimos. Eu acho que ao viajar devemos olhar com os olhos do coração, parar e sentir cada sítio. Se queremos absorver o sentimento de cada sítio devemos parar, sentir, fechar os olhos e sentirmo-nos parte desse local. Só assim conseguimos trazer connosco um bocadinho da cada terra por onde passamos. De Cabo Verde eu trouxe a simpatia das pessoas, as belezas dos lugares, os sabores e os perfumes.
E de Cabo Verde trouxe saudades... Acredito que também deixei saudades e algo de mim…

 

Publicado por Palavras Soltas às 00:41
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

África... Como uma Mulher... Misteriosa...

A primeira viagem que efectuei foi a Angola. Também foi a primeira vez que entrei num avião, uma das minhas paixões, andar de avião. Nesta viagem, contactei e conheci outros povos e outras culturas. Apesar de ser uma viagem de trabalho, foi enriquecedora a nível pessoal. Antes de viajar disseram-me:

- “Moisés, vais gostar, África apaixona, até o cheiro da terra é diferente e atrai”...
Senti isso! Uma realidade diferente. Ao chegar é um choque. O avião que me levou aterrou em Luanda às 7 horas da manhã. Ao sair do avião sente-se de imediato outra atmosfera… O cheiro de África, o ar mais pesado e quente. Ao sair do aeroporto encontra-se uma cidade que se adivinha ter sido bela e com futuro. Uma cidade que tinha sido moderna, actualmente, uma cidade parada no tempo. Saímos do caos da área de chegadas do aeroporto e vemos um cenário de filme em cena do terceiro mundo. As pessoas rodeiam-nos para ajudar a levar a bagagem na esperança de receber algum dinheiro, o caos do trânsito é impensável, o lixo acumula-se nas ruas onde os esgotos a céu aberto circulam. Espera-me o Rui, um funcionário da empresa solícito e prestável, habituado como está ao caos do trânsito depressa me leva para a aerogare dos voos internos. Aí entra-se numa realidade que só vemos em filme e que achamos que só em película existe. O caos da rua invadiu aquele espaço onde a segurança é uma coisa que só existe na indicação que aqueles homens ostentam no peito, pois quase se pode entrar e sair sem que nos perturbem, mas pouco podem fazer além de ali estar e tentar zelar o melhor que podem e sabem. O lixo das ruas parece que também quer ir viajar no voo interno e ali está presente!
Depois de pensar viajar de imediato, 5 horas de espera e lá consegui embarcar no pequeno avião rumo à cidade de Huambo, antiga Nova Lisboa.
O pequeno avião de hélices deslizou na pista e levantou voo com uma facilidade que eu não pensava. Ao meu lado, uma jovem mulher negra amamentava o filho e via-se o medo de voar estampado no rosto. Depois de 45 minutos de um voo com algumas oscilações, normais em território de África, devido às montanhas, aterramos na pista do aeroporto do Huambo no planalto central de Angola. Ali o ar é mais leve, mas aquela atmosfera de África está presente e invade-nos…
Acho que é aquele o momento, gostamos ou não de África. Assim como quando vemos uma mulher, fascina-nos ou não. E eu, gostei de África e daquele primeiro encontro. Aquele ar invadiu-me e fiquei preso.
A viagem entre o aeroporto e a cidade é de escassos minutos. Entrar naquela cidade de Huambo e penetrar por aquelas ruas o choque é brutal. A pobreza é de arrepiar e a destruição inimaginável. As ruas cheias de gente que circula de um lado para outro, lembra um formigueiro, onde as formigas andam sempre apressadas, outras ficam paradas sem nexo. Se fecharmos os olhos e imaginarmos que toda a gente desaparece como passe de mágica, vemos uma cidade fantasma tal é a destruição em alguns locais. Mas se, com olhos fechados, recuarmos no tempo, vemos uma cidade que devia ser um paraíso, um jardim.
A pobreza é quase palpável, paramos o carro para tomar um café e rodeiam-nos uma dezena de crianças esfarrapadas a pedir dinheiro para matar a fome, nas primeiras vezes ainda damos, mas, não podemos salvar o mundo ali, e, passados uns dias, tornamo-nos daquele mundo e um bocado “duros de coração”. Ali a realidade é infernal.
No trabalho que estava à minha espera nessa Terra, contactei com pessoas locais. Olham-nos com alguma desconfiança, talvez devido aos anos de colonização e devido à guerra civil que depois assolou aquele país. Não posso dizer que fui mal tratado, longe disso, até fui respeitado pelo trabalho que executei e forma como tentei tratar todos, respeitando também.
No café onde tomávamos o pequeno-almoço e no restaurante onde, por vezes, jantávamos a simpatia era constante. Mas cidades são cidades em qualquer parte do mundo, com melhores ou menores condições, são sempre cidades com o seu movimento.
E em África, o que mais me encantou foi de facto o que é terra Africana, o interior. Percorrer as estradas do interior, ver e sentir a savana, seja de noite seja de dia. De noite parar o carro na berma da estrada, sentimo-nos pequeninos, perdidos naquela imensidão saímos do carro e o silêncio da savana escuta-se num grito de alguma ave que voa lá ao longe. O céu nocturno cobre-nos como uma abobada azulada/escuro e ficamos fascinados com vontade de não sair dali. De dia olhar a imensidão da savana a perder de vista, percorrer centenas de quilómetros e nada mais ver além de savana, alguma floresta e nem vivalma à vista. Ali as distâncias são medidas às dezenas ou centenas de quilómetros e o tempo é medido aos dias ou semanas. Ali não há uma ou duas horas, há dias ou semanas. Não há, dois ou cinco quilómetros, há vinte, cem ou duzentos. É essa forma de marcar o tempo, essa imensidão a perder de vista, essa sensação de liberdade que cativa e atrai em África. Não será só isso, porque acho que em África há algum mistério que nos deixa presos. Dizem que a raça humana surgiu em África. Será isso? E sim, o cheiro da terra vermelha é diferente.
 
Esta viagem foi em Setembro de 2007. Depois voltei ao Huambo, agora já mais recontruido. Gostei de ver o jardim...      

 

 

  

 

Em Angola também conheci mais cidades. A cidade de Caála, a pequena Bailundo, Benguela, Wuaco Kungo, Sumbe, Gabela, Porto Ambuim. 

Falarei um pouco delas num próximo encontro.

Publicado por Palavras Soltas às 23:23
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

~Mais sobre mim

~Pesquisar neste blog

 

~Novembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

~Posts recentes

~ Viagem Luanda Huambo…(fic...

~ Do Huambo a Benguela _ 30...

~ A Capulana...(continuação...

~ A Capulana

~ VIAGEM DE LUANDA AO HUAMB...

~ 23:30 horas do dia 25 De ...

~ Uma opinião sobre aquela ...

~ O dia seguinte: (depois d...

~ Pensamentos Profundos est...

~ VANTAGEM DE NAMORAR UM BA...

~ Será que mereço o 12º ano...

~ É Bom Sentir...

~ A quinta do Homem...

~ COMO CHAMAR A POLÍCIA EM ...

~ Uma Viagem de Huambo a Be...

~ Um pensamento sobre Ilha ...

~ Dá para meditar um pouco.

~ “Fim-de-semana alucinante...

~ Cabo Verde

~ África... Como uma Mulher...

~Arquivos

~ Novembro 2015

~ Fevereiro 2013

~ Outubro 2012

~ Agosto 2012

~ Junho 2012

~ Junho 2011

~ Março 2011

~ Janeiro 2011

~ Dezembro 2010

~ Novembro 2010

~ Outubro 2010

~ Setembro 2010

~ Agosto 2010

~ Julho 2010

~ Junho 2010

~ Dezembro 2009

~ Junho 2009

~ Março 2009

~ Fevereiro 2009

~ Dezembro 2008

~ Outubro 2008

~ Setembro 2008

~ Maio 2008

~ Março 2008

~ Dezembro 2007

~ Novembro 2007

~ Agosto 2007

~ Fevereiro 2007

~ Dezembro 2006

~ Novembro 2006

~ Outubro 2006

~Links

~6

6

~5

5

~4

4

~3

3

~2

2

~Outras coisas

1
blogs SAPO

~subscrever feeds